Existe uma diferença entre amar alguém e amar a ideia de ser amada. Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, é uma pequena grande obra que trata justamente dessa fantasia romântica, da solidão preenchida por projeções e da beleza (às vezes cruel) de viver uma história inteira apenas dentro da cabeça.
Publicado em 1848, o conto narra o encontro entre dois estranhos que dividem confidências durante quatro noites em São Petersburgo. A princípio, tudo parece caminhar para um romance. Mas o que se desenha na verdade, é a anatomia de um amor unilateral. Ele se apaixona por ela, ela está apaixonada por outro. E nenhum dos dois está de fato, lidando com o real, apenas com a imagem que criaram do outro.
O narrador, cuja identidade jamais é revelada, deposita em Nástienka uma expectativa completamente fantasiosa, como se ela fosse capaz de preencher todos os vazios que ele acumula. Cria-se ali uma ilusão mútua e é justamente essa ilusão que move o enredo. Ela, ainda presa a um amor não resolvido. Ele, completamente convencido de que pode ser escolhido se apenas esperar e se mostrar disposto o suficiente.
É impossível não traçar um paralelo com o filme 500 Dias com Ela (500 Days of Summer), no qual o protagonista também se apaixona não pela pessoa real, mas pela ideia que criou dela, onde o personagem projeta no outro aquilo que gostaria que fosse real. É interessante notar como essa dinâmica atravessa épocas, e talvez, como diria Lacan, a partir de sua premissa central de que o ser humano não nasce completo, o sujeito é, desde sempre marcado pela falta e a ilusão do amor romântico funciona muitas vezes, como uma tentativa de tamponar-la.
Em tempos onde a construção de vínculos muitas vezes se dá por mensagens visualizadas e respostas demoradas, a leitura de Noites Brancas nos mostra algo ainda mais atual que é a tendência a projetar sentimentos em espaços vazios.
O afeto nasce mais do silêncio do que da presença, mais da expectativa do que da troca de fato.
A fantasia que criamos oferece controle, roteiro e final feliz. Diferente da vida concreta, em que o outro também escolhe, muda, desiste. Idealizar é mais seguro, mas também acaba sendo mais solitário.
Dostoiévski nos lembra que há uma espécie de ilusão que não deseja ser quebrada. Um amor sonhado, mesmo que nunca correspondido, pode parecer mais intenso do que qualquer relação real. Porque nele cabem todas as cenas que jamais se concretizaram.
E talvez seja por isso que, mesmo cercadas de conexões instantâneas, tantas pessoas hoje ainda se sintam sozinhas. Porque estão em relações que só existem dentro de si mesmas.


