O que a gente entende por intimidade hoje?

Por neverleavenaked

Durante muito tempo, intimidade parecia estar associada às grandes confidências. Saber um segredo, ouvir uma história que quase ninguém conhecia ou participar de um momento importante eram sinais claros de proximidade. Isso continua existindo, mas hoje a intimidade também aparece em situações muito mais banais. Ela pode estar em uma foto enviada sem explicação, em […]

Durante muito tempo, intimidade parecia estar associada às grandes confidências. Saber um segredo, ouvir uma história que quase ninguém conhecia ou participar de um momento importante eram sinais claros de proximidade. Isso continua existindo, mas hoje a intimidade também aparece em situações muito mais banais.

Ela pode estar em uma foto enviada sem explicação, em um áudio longo sobre um dia comum, na localização compartilhada ou em um meme que só aquela pessoa vai entender. São gestos pequenos, mas que revelam uma coisa importante sobre as relações. Nem sempre a proximidade está na quantidade de informação que alguém compartilha, e sim no tipo de acesso que essa pessoa permite.

A internet ampliou muito esse acesso. Podemos acompanhar alguém acordando, trabalhando, viajando, comendo ou saindo com os amigos sem fazer parte da vida dessa pessoa. É possível saber bastante sobre alguém e, ainda assim, não conhecê-la de verdade.

Essa diferença ficou mais difícil de perceber porque a exposição produz familiaridade. Quando vemos uma pessoa com frequência, reconhecemos sua casa, seus hábitos, suas roupas e até a forma como ela fala. Aos poucos, aquela rotina deixa de parecer completamente estranha. Só que familiaridade não exige reciprocidade. Intimidade, sim.

Uma relação íntima não depende apenas de ter informações sobre alguém. Ela envolve confiança e a possibilidade de existir sem precisar controlar o tempo inteiro a forma como somos percebidos.

Compartilhar muito nas redes não significa necessariamente mostrar as partes mais vulneráveis da própria vida. Mesmo os conteúdos mais espontâneos passam por alguma escolha. A pessoa decide o que publicar, o que deixar de fora e qual versão de uma situação deseja apresentar. O público pode ter acesso a muitos detalhes e continuar vendo apenas aquilo que foi preparado para ser visto.

Quem é próximo conhece histórias que não renderiam um post, recebe mensagens mal formuladas, acompanha preocupações pequenas e participa de conversas que não têm nenhuma conclusão interessante.

As ferramentas mudaram esse processo, mas não inventaram a necessidade que existe por trás dele. Close friends, mensagens privadas, áudios e localização compartilhada são apenas novas maneiras de dizer que determinadas pessoas têm um acesso diferente à nossa vida.

Isso também explica por que estar no close friends de alguém, por exemplo, não significa automaticamente ser íntimo dessa pessoa. A ferramenta cria um círculo menor, mas não cria vínculo por conta própria. É a relação construída fora daquele botão que determina o peso do que está sendo compartilhado.

Por isso, mesmo numa época em que conseguimos compartilhar quase tudo, intimidade continua dependendo de algo que nenhuma plataforma consegue automatizar. Ela nasce da confiança de que, perto de determinadas pessoas, não precisamos transformar cada parte da nossa vida em uma versão pronta para ser vista.

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